1. Qual é o problema com o capitalismo?

Capitalismo. Isso é o mesmo que democracia, não é?

Afinal, não são os inimigos do capitalismo os opositores à democracia?

Na verdade, capitalismo e democracia são duas coisas bem diferentes. A democracia é a ideia de que o poder deveria ser partilhado por todos ao invés de ficar concentrado nas mãos de alguns. O capitalismo é basicamente o oposto disso.

No Brasil (e na maioria das nações ocidentais), estamos acostumados a ouvir que vivemos em uma sociedade democrática. É verdade que temos um governo que se diz democrático, mas isso não é o mesmo que afirmar que nossa sociedade o seja. O governo é apenas um dos aspectos de uma sociedade, e um dos menos importantes. O sistema econômico tem mais influência em nosso dia-a-dia do que o senado ou o presidente. É a economia que decide quem controla as terras, os recursos e as ferramentas de uma sociedade, e é ela que determina o que as pessoas precisam fazer todos os dias para “acompanhar o progresso”.

O capitalismo é, na verdade, um dos sistemas econômicos menos democráticos que existem. Em uma economia democrática, a opinião de cada membro da sociedade teria o mesmo valor na hora de decidir como usar os recursos e realizar os trabalhos. Mas na economia capitalista, na qual todos os recursos são propriedade privada, e na qual todos competem uns contra os outros por eles, a maioria termina nas mãos de algumas poucas pessoas. Essas pessoas decidem como todas as outras irão trabalhar, já que a maior parte não consegue sobreviver sem entregar dinheiro a elas. Elas também determinam a geografia física e mental de nossa sociedade, já que possuem a maior parte das terras e controlam a maior parte da mídia. E, no fim das contas, elas também não têm o controle: se abaixarem suas guardas e pararem de tentar se manter “no topo”, serão jogadas para a base da pirâmide junto com o resto. Isso significa que ninguém é verdadeiramente livre sob o sistema capitalista: todo mundo está igualmente sujeito às “leis” da competição.

2. Como o capitalismo funciona?

Essa é a forma na qual o “livre”-mercado supostamente funciona: as pessoas são livres para ganhar seu dinheiro como quiserem, e aqueles que trabalham mais e oferecem as coisas mais valiosas à sociedade são recompensados com maiores riquezas. Mas esse sistema tem uma falha crucial: ele não oferece oportunidades iguais a todo mundo. O sucesso, no “livre”-mercado, depende quase inteiramente de quanta riqueza você tem (ou vai herdar).

Quando o capital[1] se torna propriedade privada, as oportunidades que um indivíduo tem para aprender, trabalhar e acumular dinheiro estão diretamente ligadas à riqueza que ele possui. Diplomas não podem ignorar isso. É preciso de recursos para produzir algo de valor, e se alguém não possui esses recursos por conta própria, descobrirá que está à mercê dos que possuem. Enquanto isso, esses que já têm recursos podem acumular mais e mais riquezas, o que faz com que a maior parte das riquezas de uma sociedade acabe nas mãos de alguns poucos. Sem dinheiro e posses suficientes, o capital que resta a todos os outros é seu próprio trabalho, o qual precisam vender aos capitalistas (aqueles que controlam a maior parte dos meios de produção) para sobreviver.

Isso pode parecer confuso, mas é muito simples. Uma corporação como a Nike tem bastante dinheiro sobrando para abrir novas fábricas, comprar mais anúncios publicitários e vender mais tênis, ganhando mais dinheiro para investir. A maioria das pessoas não tem dinheiro nem para abrir uma banquinha de limonada; e, mesmo se o fizesse, provavelmente seria engolida por uma companhia como a Pepsi, que tem mais dinheiro para se auto-promover[2]. É quase certo que você acabará trabalhando para eles para “ganhar a vida”. E trabalhar para eles reforça seus poderes: eles podem pagá-lo por seu trabalho, mas pode ter certeza de que não estão pagando o que você vale, pois é assim que (o dono de) uma empresa lucra. Isso significa que sempre há alguém embolsando seus esforços; e, quanto mais eles fazem isso, mais dinheiro e oportunidades terão às suas custas.

3. De que formas isso nos afeta?

A pior parte de tudo é que seu tempo e sua energia criativa estão sendo compradas de você. Quando tudo que você tem para vender em troca de sua sobrevivência é seu trabalho, você é forçado a vender a própria vida em prestações, apenas para existir. Você acaba passando a maior parte de seu tempo fazendo o que quer que lhe pague mais (ou o mínimo necessário), ao invés de fazer o que gostaria (tudo que gostaria, não apenas uma coisa): você troca seus sonhos por salários e sua liberdade por posses materiais. Em seu tempo “livre”, você pode comprar de volta o que você mesmo fez durante o trabalho (enriquecendo mais ainda seus patrões). Mas você nunca mais será capaz de comprar o tempo que gastou. Essa parte de sua vida está perdida para sempre, e as contas que você tem para pagar são o recibo do que desperdiçou.

Sim, há algumas poucas pessoas que encontram maneiras de ganhar dinheiro fazendo exatamente aquilo que sempre quiseram. Mas quantos dos seus familiares, amigos e conhecidos se encaixam nessa categoria? Esses raros indivíduos são apresentados como “prova” de que o sistema funciona, e somos exortados a trabalhar muito, muito duro para que um dia possamos ser como eles. Se você não consegue se tornar uma “estrela” e acaba trabalhando como vendedor em um shopping, você só pode não ter se esforçado o suficiente. Então, se você está entediado, é culpa sua, certo? Mas não foi você que decidiu que é preciso haver mil vendedores de tênis para cada jogador profissional! Se você pode ser culpado de alguma coisa, é por aceitar uma situação que oferece tão poucas chances. Ao invés de competir para subir os degraus da corporação ou ganhar na loteria, deveríamos tentar descobrir como estender a todos a chance de viver a vida que se quer. Pois mesmo que você seja “sortudo” o suficiente para chegar ao “topo”, o que resta para os bilhões que não chegam? É de seu interesse viver em um mundo repleto de pessoas infelizes, que nunca têm a chance de perseguir seus sonhos? Que nem ao menos possuem sonhos?

4. Quanto vale uma pessoa sob o capitalismo?

Sob o capitalismo, nossas vidas orbitam ao redor de coisas, como se a felicidade pudesse ser encontrada em posses, e não em ações e criações. Aqueles que têm riquezas as têm porque gastam bastante tempo e energia pensando em como tomá-las de outras pessoas. Aqueles que têm muito pouco precisam gastar a maior parte de suas vidas trabalhando para conseguir sobreviver, e tudo que têm como consolação por seu trabalho e sua pobreza é as poucas coisas que são capazes de comprar (já que suas próprias vidas foram vendidas). Entre essas duas classes estão os membros da burguesia, ou classe-média, que são bombardeados desde o berço por anúncios publicitários que proclamam que a felicidade, a juventude, o significado, e tudo pelo que vale a pena viver pode ser encontrado em posses e símbolos de status. Eles aprendem a desperdiçar seu tempo trabalhando duro para coletar tudo isso, ao invés de tirar vantagem das chances que têm para ir atrás de outros (e verdadeiros) prazeres.

Assim, o capitalismo determina o valor de uma pessoa pelo que ela tem, e não pelo que ela faz, deixando-a gastar sua vida competindo pelas coisas que precisa para sobreviver e alcançar “status social”. Seria mais fácil as pessoas encontrarem a felicidade em uma sociedade que as encoraja a valorizar uma ação livre e a fazer o que preferem acima de qualquer outra coisa. Para criar uma sociedade assim, precisamos parar de competir por controle e riquezas, e começar a dividi-los livremente. Somente dessa forma todo mundo estará livre para escolher a vida que quer seguir, sem medo de morrer de fome ou ser excluído de todo o resto.

5. Mas a competição não leva à produtividade?

Sim. E esse é o problema! A economia competitiva do “livre”-mercado não apenas encoraja a produtividade, ela a impõe: porque aqueles que não se mantêm à frente da competição são pisoteados por ela. E a que custos, exatamente? Primeiro, há as horas intermináveis que passamos no trabalho: quarenta, cinquenta, às vezes sessenta horas por semana (ou noventa, se você for um empregado terceirizado do Wal-Mart ou do Carrefour), sob as ordens de patrões e/ou clientes, trabalhando até depois da exaustão na corrida para “manter-se à frente”. Acima disso, há os baixos salários que recebemos: a grande maioria de nós não é paga o suficiente para aproveitar todas as coisas que nossa sociedade oferece, mesmo quando é o nosso trabalho que as tornam possíveis. Isso porque, em um mercado competitivo, os trabalhadores não recebem o que merecem por seu esforço: eles recebem o mínimo necessário para não procurar outro emprego (isso quando possuem alguma escolha). Essa é a “lei” da oferta e da demanda. O empregador precisa fazer isso, porque precisa poupar o máximo de capital possível para investir em campanhas publicitárias, expansões e outras formas de se manter à frente da concorrência (real ou fabricada). De outra forma, ele não será um empregador por muito tempo, e seus empregados irão trabalhar para um chefe mais “competitivo”.

Há uma palavra para essas horas intermináveis e salários injustos: exploração. Ou, melhor ainda: escravidão. Mas esses não são os únicos custos exigidos pela “produtividade” de nosso sistema competitivo. Os empregadores precisam cortar as despesas de várias outras formas. É por isso que nossos ambientes de trabalho são geralmente perigosos, por exemplo. E se for preciso fazer coisas que são ecologicamente destrutivas para ganhar dinheiro e se manter “produtivo”, um sistema econômico que privilegia a produtividade não dá às corporações motivo algum para que não arrasem a natureza em troca de alguns trocados. É isso que aconteceu com nossas florestas, com a camada de ozônio, com milhares de espécies de animais: foram todos consumidos por nossa obediência estúpida. Ao invés de florestas, agora temos shopping centers e postos de gasolina, porque é mais importante ter lugares onde comprar e vender do que preservar ambientes de paz e beleza. Ao invés de onças e araras, agora temos animais aprisionados em granjas, transformados em pedaços de carne e leite[3]. A coisa mais próxima a um animal selvagem que a maioria de nós irá ver é um personagem da Disney. Nosso sistema econômico competitivo nos força a substituir tudo que é livre e belo pelo que é “eficiente”, uniforme e lucrativo.

Isso não se limita aos países do G20: o capitalismo e seus valores estão disseminados pelo mundo todo como uma doença. As companhias precisam manter seu mercado crescendo, seja por força ou persuasão, para não serem passadas para trás. É por isso que você pode comprar uma Coca-Cola no Egito e comer McDonald’s na Tailândia. Através da história fomos capazes de ver como corporações capitalistas forçaram suas entradas em um país atrás do outro, não hesitando em usar de violência quando achavam necessário[4]. Hoje, seres humanos em quase todos os cantos do planeta vendem seu trabalho às corporações multinacionais, às vezes por menos do que $1 a hora, em troca da chance de perseguir as imagens de riqueza e status que tais corporações criam para hipnotizá-los. A riqueza que seu trabalho propicia é sugada das comunidades aos bolsos das companhias; e, em troca, suas culturas particulares são substituídas pela monocultura padrão do consumismo ocidental. Dessa forma, o povo desses países dificilmente pode deixar de tentar se tornar tão competitivo e “produtivo” quanto aqueles que o exploram. Consequentemente, o mundo inteiro está sendo padronizado em um sistema, o capitalista… e as pessoas estão começando a ter dificuldades para imaginar outra forma de se fazer as coisas.

Então, que tipo de produtividade a competição encoraja? Apenas a produtividade material – ou seja, o lucro a qualquer custo. Nós não ganhamos em qualidade, pois é do interesse do manufatureiro que voltemos a comprar dele de novo quando nossos carros e celulares estragarem em alguns anos (ou ficarem obsoletos em alguns meses). Nós também não ganhamos os produtos que são mais relevantes a nossas vidas e à busca pela felicidade: nós ganhamos o que é fácil e lucrativo de se vender. Nós ganhamos companhias de cartão de crédito, telemarketing, spam, vícios portáteis que causam câncer de pulmão, etc. Para que uma companhia possa ultrapassar seus concorrentes, nós acabamos desperdiçando nossas vidas para desenvolver, produzir em massa e comprar idiotices como sacolas plásticas, e outros tipos de “conveniências” que aumentam nosso padrão de sobrevivência sem melhorar nossa qualidade de vida. Mais do que liquidificadores, videogames e salgadinhos melhores, precisamos de mais significado e prazer em nossas vidas, mas estamos tão ocupados competindo que nem temos tempo para pensar sobre isso.

Certamente, em uma sociedade menos competitiva, ainda poderíamos produzir todas as coisas de que precisamos, sem sermos obrigados a produzir as superfluidades que estão atualmente superlotando nossas paisagens e apodrecendo a céu aberto. E talvez aí sim pudéssemos concentrar nossos esforços em aprender a produzir a coisa mais importante de todas: o bem-estar humano e animal.

6. Não me diga que a vida seria melhor em um sistema como o da USSR!

É óbvio que não. A economia soviética não era mais democrática do que a economia norte-americana o é. Nos Estados Unidos, a maioria do capital é controlado pelas corporações, que, dessa forma, são capazes de exercer o controle sobre as vidas de seus empregados (e, por extensão, sobre a vida de seus clientes). Na União Soviética, a maioria do capital era controlado por apenas uma força, o governo, que deixava todos os outros à sua mercê. E mesmo que não houvesse a competição interna que leva as corporações ocidentais aos limites da crueldade, o governo Soviético ainda competia com outras nações em termos de produtividade e poder econômico. Isso os levou aos mesmos extremos de devastação ecológica e exploração trabalhista que são comuns no Ocidente. Nos dois sistemas, você pode ver o resultado desastroso de se pôr muita riqueza nas mãos de pouca gente. O que podemos viver, agora, é um sistema no qual todos têm uma parcela da riqueza da sociedade e uma voz sobre o que deve ser feito.

7. Quem exatamente detém o poder em um sistema capitalista?

Em um sistema no qual as pessoas competem pela riqueza e pelo poder que ela traz, aqueles que se mostram mais impiedosos é que acabam conquistando a maior parte de ambos. Dessa forma, o sistema capitalista encoraja a desinformação, a exploração e o engano, e recompensa aqueles que utilizam tais artifícios com o poder de decidir como a sociedade deve ser.

As corporações mais capazes de nos convencer de que precisamos de seus produtos, mesmo quando não precisamos, são as mais bem-sucedidas. É assim que uma companhia como a Coca-Cola, que faz um dos produtos mais inúteis do mercado, foi capaz de obter uma fatia tão grande de riqueza: eles foram os melhores não em oferecer à sociedade algo de valor, mas em promover seu produto. A Coca-Cola não é a melhor bebida que o mundo já experimentou, é apenas a mais impiedosamente divulgada. Aqueles que são mais bem-sucedidos em criar um ambiente que nos mantêm comprando, mesmo que isso se dê através de manipulações publicitárias e outros meios ainda piores, são os que acumulam a maior parte dos recursos para continuar esse processo: sendo assim, são eles que acabam decidindo em que tipo de ambiente devemos viver. É por isso que nossas cidades estão cheias de outdoors e arranha-céus, e não de trabalhos artísticos e jardins comunitários. É por isso que nossos jornais e telejornais estão repletos de perspectivas distorcidas e mentiras indiretas: os produtores estão à mercê de seus anunciantes, principalmente dos que têm mais dinheiro – dos que estão dispostos a tudo, até mesmo a distorcer fatos e divulgar inverdades, para manter e multiplicar esse dinheiro (pesquise um pouco e você verá com que frequência isso ocorre). O capitalismo praticamente garante que aqueles que controlam a sociedade sejam os indivíduos mais gananciosos, cruéis e desumanos.

E já que todos os outros estão à sua mercê, e ninguém quer ficar do lado perdedor, todo mundo é encorajado a ser ganancioso, cruel e desumano também. Claro que ninguém é egoísta o tempo todo. Pouquíssimas pessoas querem ser, ou tiram prazer disso – talvez nenhuma. Mas o ambiente de trabalho tradicional torna as pessoas frias e impessoais. Se alguém chega a uma padaria faminto e sem dinheiro, a política da empresa geralmente ordena seus empregados a mandá-lo embora de mãos vazias, ao invés de deixá-lo ter alguma coisa sem pagar; mesmo que a padaria jogue dúzias de pães no lixo todos os dias, como a maioria o faz. Os pobres empregados passam a enxergar os famintos como uma incomodação, e os famintos culpam os empregados por não ajudá-los, quando na verdade é o capitalismo que os joga um contra o outro. E provavelmente é o empregado mais disposto a seguir ordens ridículas como essa que acaba se tornando o gerente.

Aqueles que ousam passar suas vidas realizando coisas que não são lucrativas geralmente não recebem reconhecimento por seu trabalho. Eles podem estar fazendo coisas de grande valor à sociedade, como arte, música ou trabalho social – incluindo o protesto social. Mas, se não puder transformar essas atividades em lucro, terá dificuldades para sobreviver, quanto mais juntar os recursos para expandir seu trabalho. E, como o poder advém da riqueza, eles também terão pouco controle sobre o que acontece em sua sociedade. Assim, corporações que não têm nenhum objetivo além de acumular mais dinheiro para si mesmas sempre acabam tendo um poder de decisão maior do que artistas e ativistas sociais. Ao mesmo tempo, poucas pessoas podem se dar ao luxo de passar muito tempo realizando coisas valiosas e não-lucrativas. Você é capaz de imaginar os efeitos que isso traz.

8. Em que tipo de lugar isso transforma nosso mundo?

O sistema capitalista dá às pessoas comuns pouquíssimo controle sobre as capacidades e tecnologias coletivas de sua sociedade, e pouquíssimo poder de decisão sobre seus usos. Mesmo que seu trabalho tenha construído o mundo em que vivem, elas o veem como algo “estrangeiro” e fora de seu controle, algo que acontece independente de suas vontades. Não é de espantar que sintam-se frustradas, impotentes, incompletas. Mas não é apenas essa falta de controle que torna o capitalismo tão hostil à felicidade humana: ao invés do controle democrático, temos o domínio irracional da força.

A violência não está presente apenas quando os seres humanos batem uns nos outros. A violência existe, talvez de formas mais sutis, sempre que nossas interações incluem a imposição e a proibição[5]. A violência está na raiz do capitalismo. Sob esse sistema, todas as leis econômicas que governam a vida humana se limitam à coerção: Trabalhe ou passe fome! Domine ou seja dominado! Seja competitivo ou seja eliminado! Venda as horas de sua vida ou apodreça na pobreza – ou na prisão!

A maioria das pessoas vai trabalhar porque precisa, não porque quer (e o fato de que 99% delas deseja ganhar na loteria é uma comprovação disso). Elas vendem seu tempo para comprar comida e moradia, e para pagar as contas de todos os luxos e símbolos de status que foram condicionadas a colecionar, só porque sabem que a alternativa é a inanição ou o ostracismo. Elas até podem gostar de algumas das coisas que fazem no trabalho, mas prefeririam mil vezes realizá-las a seu jeito e na hora que preferissem; além de fazer outras coisas para as quais seu trabalho não deixa tempo ou energia. Para forçar a produtividade de pessoas que prefeririam estar em outro lugar, as corporações utilizam milhares de mecanismos de controle, como estabelecer horários fixos de trabalho (e de “descanso”) e manter uma vigilância constante. Patrões e empregados são ligados por coerções econômicas, e negociam uns com os outros sob ameaças invisíveis: um apontando a arma do desemprego e da pobreza, o outro mostrando desinteresse pelos serviços da companhia. É claro que a maioria das pessoas tenta manter uma consideração pelas necessidades dos outros, até mesmo no trabalho; mas a essência de nossa economia é competição e dominação, as quais não podem deixar de dar as caras em relações de hierarquia e assustar os que estão “abaixo” e “acima” de nós.

Você é capaz de imaginar o quanto seria mais vantajoso, e mais divertido, se pudéssemos agir através do amor (entendido aqui como uma espécia de livre-vontade), ao invés da compulsão?[6] Se fizéssemos as coisas pelo simples prazer de criar, e trabalhássemos juntos porque queremos, não porque precisamos? Isso não tornaria mais fácil fazer as coisas que precisamos para viver (e não apenas para sobreviver, ou aumentar o padrão de sobrevivência), e também para apoiarmos uns aos outros?

Esses padrões de violência inevitavelmente respingam sobre o resto de nossas vidas. Quando você está acostumado a ver as pessoas como objetos, como recursos a serem gastos ou inimigos a serem vencidos (ou temidos), é difícil deixar esses valores para trás quando você chega em casa. A hierarquia que a propriedade privada impõe nas relações de trabalho pode ser encontrada em todos os outros aspectos da sociedade: nas escolas, nas igrejas, nos círculos familiares, nas amizades, em todo lugar onde as dinâmicas da dominação e da submissão se fazem presentes. É quase impossível imaginar como seria um relacionamento verdadeiramente igualitário, em uma sociedade onde todos estão sempre em busca de uma falsa superioridade. Quando crianças competem por notas e gangues rivais se enfrentam em becos, elas estão apenas replicando os conflitos maiores que tomam forma entre as corporações e as nações que servem aos interesses das primeiras; a violência das ruas é vista como uma anomalia, mas é apenas o reflexo do mundo competitivo que a moldou. Quando amigos e amantes em potencial avaliam-se em termos de status e valor financeiro, estão apenas pondo em prática as lições que aprenderam sobre “valor de mercado”. Vivendo sob o reino da força, é praticamente impossível não encarar os outros seres humanos e o mundo em geral em termos de “o que eles têm para me dar?”.

Se vivêssemos em um mundo no qual pudéssemos perseguir quaisquer aspirações que nos agradassem, sem medo de morrer de fome, ficarmos insanos ou sermos abandonados, nossas vidas e relacionamentos não seriam mais moldados pela violência[7]. Talvez assim fosse mais fácil olhar para os outros e ver o que há de belo e único em cada um, de apreciar a natureza pelo que ela já é (e não no que achamos que devemos transformá-la). Existiram, e ainda existem, centenas de sociedades na história da espécie humana no qual as pessoas viveram e vivem dessa forma. É realmente pedir demais que reorganizemos nossa sociedade para que seja democrática de verdade?

9. Ok, mas qual é a alternativa?

A alternativa ao capitalismo é uma sociedade na qual nós podemos decidir individualmente (e, quando necessário, coletivamente) como nossas vidas e ambientes devem ser, ao invés de nos subjugarmos a “leis” arbitrárias e maiorias fictícias. É difícil imaginar sociedades baseadas na cooperação quando as únicas que a maioria de nós já conheceu são movidas pela competição. Mas tais sociedades são possíveis: elas têm existido e reaparecido várias vezes ao longo da história de nossa espécie, e podem surgir novamente assim que quisermos[8].

Para escapar das algemas da competição, precisamos desenvolver uma economia baseada em doações, e não em trocas (muito menos as intermediadas pelo dinheiro). Em um sistema como esse, cada pessoa pode fazer o que quer com sua vida, e oferecer aos outros o seu melhor. Os meios de produção podem ser divididos por todos, ao invés de serem acumulados pelos indivíduos mais gananciosos. Assim, cada pessoa tem todas as capacidades de uma sociedade à sua disposição. Aqueles que amam pintar podem pintar, aqueles que amam bicicletas podem construi-las e repará-las para os outros, aqueles que amam a terra podem cultivá-la e dividir seus frutos, e assim por diante. Nós fazemos tudo isso. Só não podemos fazer sempre porque somos obrigados a comprar a própria sobrevivência. O chamado “trabalho-sujo” também pode ser dividido de forma mais justa, e todo mundo sairia ganhando ao ser capaz de realizar uma grande variedade de coisas, ao invés de ser limitado a apenas um serviço ou função. O próprio “trabalho” pode ser mil vezes mais prazeroso, sem horários apertados e chefes autoritários nos restringindo. E mesmo que tenhamos uma taxa menor de produção (o que já é uma vantagem por si só), ganhamos uma gama maior de potencial criativo, o que torna a vida mais completa e significativa para todos nós. Além do mais, nós realmente precisamos de todas as bugigangas e luxos que produzimos e consumimos hoje em dia?

Isso pode parecer uma visão utópica. E de fato o é. Mas isso não significa que não podemos aproximar nossas vidas o máximo possível dessa visão. Também não precisamos olhar muito longe para ver exemplos de como é a vida fora do capitalismo: mesmo hoje, há muitas oportunidades em nossa sociedade para ver o quanto a vida é melhor quando nada tem um preço. Sempre que um grupo de costura se reúne para partilhar amizades e conselhos, sempre que as pessoas acampam juntas e dividem as responsabilidades, sempre que as pessoas cooperam para fazer comida, música, ou qualquer outra coisa que envolva prazer, e não dinheiro, vemos a economia da doação em funcionamento. Uma das melhores coisas de se estar apaixonado ou ter um amigo íntimo é que, nessas relações, você é valorizado pelo que é, não pelo quanto “vale”. E é um sentimento maravilhoso aproveitar o que vem de graça em nossas vidas, sem precisar medir quanto de nós mesmos estamos trocando por isso. Mesmo nessa sociedade, quase tudo que nos dá prazer de verdade vem de fora das relações capitalistas. E por que não deveríamos exigir a todo momento o que funciona tão bem em nossa vida particular?

“Mas quem coletará o lixo, se todos fizerem o que desejam”? Talvez (e não há motivos para isso) o lixo não seja coletado de forma tão regular, mas seria coletado de forma voluntária, o que faz toda a diferença. Sem contar que uma sociedade livre da competição produziria tão pouco lixo que cada um seria capaz de reciclar os próprios dejetos. Sugerir que nós não podemos satisfazer nossas necessidades sem sermos forçados por “autoridades” é subestimar ridiculamente nossa espécie. A ideia de que todos ficaríamos “sem fazer nada” se não estivéssemos trabalhando para “chefes” vem do fato de que, já que somos obrigados a obedecer a um patrão para sobreviver, preferimos ficar sem fazer nada. Certamente não nos deixaríamos morrer de fome em uma sociedade que divide o poder e as decisões. E o fato de que um bilhão de pessoas está passando fome agora indica que nenhum sistema pode ser mais fracassado do que o capitalista.

Seguido ouvimos que é da natureza humana ser “ganancioso”, e que é por isso que nosso mundo é assim. A própria existência de outras sociedades e outros modos de vida contradiz essa afirmação[9]. Assim que você se dá conta de que a sociedade capitalista moderna é apenas uma de milhares de formas através das quais os seres humanos vivem e interagem, você percebe que essa conversa de “natureza humana” não faz sentido. Somos formados pelos ecossistemas nos quais crescemos – e os seres humanos têm o poder (agora mais do que nunca) de construir seus próprios ecossistemas. Se formos ambiciosos o suficiente (e ambiciosos de verdade), podemos planejar nosso mundo para que ele nos reconstrua de volta. Sim, todos nós somos assombrados por sentimentos de cobiça e violência, após nascer e crescer em um mundo materialista. Mas em ambientes mais tolerantes, construídos sobre valores diferentes, podemos aprender a interagir de formas que trazem maior prazer a todos nós. Seríamos muito mais generosos se pudéssemos – é difícil presentear e dividir livremente em um mundo no qual precisamos vender uma parte de nós mesmos para conseguir alguma coisa. Com isso em mente, é incrível a quantidade de presentes que ainda distribuímos uns aos outros.

Aqueles que falam sobre “natureza humana” nos dizem que ela consiste no desejo de possuir e controlar. Mas possuir e controlar o quê? E quanto a nossos desejos de partilhar, e de criar pelo prazer de criar? Somente quem já desistiu de fazer o que gosta se contenta em procurar significado apenas no que pode comprar. Todo mundo sabe que dá mais prazer alegrar os outros do que tomar as coisas deles (ou negar acesso a elas, o princípio básico da propriedade privada). Agir livremente e doar livremente são recompensas em si mesmas.

É tentador pensar que o capitalismo é uma conspiração dos ricos contra os pobres, e transformar o conflito contra o capitalismo em um conflito contra a “elite”. Mas, na verdade, é do interesse de todos que mandemos esse sistema econômico embora. Se a verdadeira riqueza consiste em liberdade e comunidade, então somos todos miseráveis: porque ser “rico” em uma sociedade hostil a essas coisas significa apenas possuir o maior número de pobrezas. Esse sistema não é o resultado de um plano maligno de alguns vilões em direção à dominação mundial – e mesmo se fosse, eles tiveram sucesso apenas em condenar a todos, inclusive a si mesmos, aos grilhões da dominação e da submissão. Não precisamos invejá-los porque eles parecem melhores à distância. Qualquer um que tenha crescido em uma de suas mansões pode dizer que, apesar de suas contas bancárias, eles não são mais felizes ou mais livres do que ninguém. Devemos encontrar maneiras de mostrar que todos tem a ganhar com a transformação da sociedade, inclusive aqueles que imaginam controlá-la.

Se esse é um desafio difícil, e às vezes lhe parece que “as massas” merecem o que têm por aceitar esse estilo de vida, não desmoreça. Lembre-se de que o sistema que eles aceitam é aquele no qual você deve viver. Sua chance de liberação está inextricavelmente ligada à deles. Não fique paralisado pela aparente vastidão das forças arranjadas contra você – essas forças são feitas de pessoas como nós, implorando para serem livres. Encontre maneiras de escapar do sistema de violência em sua própria vida e, quando puder, ajude os que não conseguiram. Aproveite cada momento livre, cada oportunidade na qual você pode pôr as mãos. A vida pode ser vendida, mas não pode ser comprada – apenas roubada de volta!


[1] Dinheiro, posse ou trabalho que pode ser usado para criar mais capital.

[2] Sim, há histórias de “sucesso” de pequenos investidores que triunfaram sobre a competição, mas é fácil de perceber porque isso geralmente não acontece.

[3] As únicas onças e araras que sobraram estão presentes nas notas que utilizamos para extingui-las.

[4] Há ótimos exemplos dessa prática corriqueira no maravilhoso As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano.

[5] Por exemplo: impedir a entrada de uma pessoa a um determinado local, como um condomínio fechado, é uma violência tão grande (embora menos óbvia) quanto invadir o local.

[6] Se você não consegue, não é porque não há como. É, simplesmente, porque você não consegue.

[7] E esse sim é um mundo que só não existe porque não nos esforçamos o suficiente, e não porque é “impossível” de se atingir.

[8] Você entende que a “história” está mais para uma repetição de ciclos do que para uma escalada rumo ao “destino final” da humanidade, certo?

[9] E é por isso que a mídia comercial ou corporativa não tem interesse em mostrar exemplos de sociedades alternativas.

Para que a “reunião para salvar o mundo” aconteça essa semana em Copenhague, mais de 40.000 toneladas de dióxido de carbono serão emitidas na atmosfera (mais ou menos a mesma quantidade emitida por uma cidade pequena). Os poluentes serão lançados pelos escapamentos das limusines e pelos motores dos jatos privados que carregam as chamadas “VIP”. São tantos jatinhos que o aeroporto de Copenhague não é capaz de acomodá-los, o que força os pilotos a largarem os passageiros na Dinamarca e a voarem à Suécia para “estacionar”. Cada hotel de luxo na cidade estará lotado e irá oferecer a seus ilustríssimos hóspedes alimentos sustentáveis como foie gras, caviar e filé. Hospédes que depois irão se reunir para discutir excessos.

Copenhague irá funcionar como um perfeito microcosmo: para cada ativista subsistindo de tofu e vivendo fora da jaula, haverá inúmeras pessoas que, de alguma forma, consideram-se acima ou além do problema. Pessoas que não são capazes de ver a ironia de se atravessar o mundo em um jato particular para discutir a questão das emissões de carbono. Até que a elite mundial não pare de ver dois planetas – aquele que precisa ser salvo e aquele no qual ela vive – 40.000 toneladas de poluição é a única coisa que esse tipo de reunião pode produzir.

A desculpa de exterminar o “terrorismo” do mundo cria novos mecanismos e elementos para desumanizar o diferente, impor preconceitos e exaltar supremacias. A nossa é uma geração assustada, com um medo irracional de um perigo que, muitas vezes, não consegue identificar racionalmente, e acaba direcionando-o, com a ajuda hábil da imprensa, ao pobre, ao negro, ao sem-terra, ao favelado, aos “de baixo”. Uma geração tão bombardeada por imagens e informações que acaba perdendo suas referências de realidade e, acuada, começa a acreditar que a causa da violência está nos assentamentos, nas periferias, nas favelas, e não em um sistema econômico que exclui cada vez mais, que destrói o meio ambiente, que produz a guerra.

Entrevista de Najla dos Passos, publicada no site do MST.

Um estudo muito interessante está sendo feito nos Estados Unidos. A autora e pesquisadora Melanie Joy afirma, em seu livro Why we love dogs, eat pigs and wear cows (Por que nós amamos cães, comemos porcos e vestimos vacas), que o hábito humano de se comer carne é tão ideológico quanto o hábito de não comer. Ambos são crenças, não comportamentos naturais, e devem ser tratados como tal. A autora inclusive se refere aos primeiros como “carnistas”, em oposição aos segundos, os vegetarianos.

O carnismo é um sistema de crenças que diz ser certo comer alguns animais e errado comer outros. Por exemplo: vacas, porcos e frangos, pode; cães, gatos e cavalos, não pode. Se você for perguntar a um carnista os motivos dessa separação ele não saberá explicar. Dirá apenas que comer carne de cachorro é “estranho”. Isso quando não desbancar para a teologia supersticiosa e afirmar que cachorros têm sentimentos, mas vacas não.

A primeira reação a uma carne “nova” é sempre de estranhamento. Um carnista reagiria com repulsa ao pensar em comer um papagaio, por exemplo. Essa não é uma atitude particularmente carnívora, diga-se de passagem. O que torna aceitável o consumo de carne de frango (e de todas as outras mais comuns) é uma sensação de normalidade, nada mais. E o que torna aceitável o consumo de carne como um todo é uma falsa sensação de necessidade, impulsionada por apetites “exigentes”.

Vegetarianos e carnistas estão muito mais próximos do que imaginam em termos de hábitos alimentares. Enquanto os primeiros consomem 0,00% dos tipos de carnes disponíveis no planeta, os segundos consomem, se tanto, 0,01%. Os primeiros se põe de fora de uma “cadeia alimentar” arbitrária, os segundos constroem uma toda particular. Mas a diferença é que os primeiros admitem seguir uma crença, e o fazem por conta própria, enquanto os segundos, moldados pelos hábitos dos que vieram antes deles, ainda acham estar seguindo os passos da natureza.

Aqui vai uma dica de atividade pra quem não sabe o que fazer durante as férias. Aproveite que as cidades estarão vazias enquanto as pessoas “descansam” nas praias e subverta um outdoor! O processo é muito fácil e consiste em apenas duas etapas:

1. Escolha um outdoor e pinte-o de branco.

2. Desenhe o que quiser em cima.

Pronto. Agora esses espaços finalmente servem para alguma coisa.

Por onde passei,
plantei a cerca farpada,
plantei a queimada.

Por onde passei,
plantei a morte matada.

Por onde passei,
matei a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada…

Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.

Poema Confissões do Latifúndio, de Pedro Casaldáliga.

No seu comportamento para com os animais, todos os homens são nazistas. A presunção com a qual o homem pode fazer o que quiser com outras espécies exemplifica a teoria racista mais extrema: a lei do mais forte.

Isaac Singer, vencedor do prêmio Nobel de literatura.

Atualmente os EUA possuem 850 bases militares em quarenta países. A metade do gasto militar mundial corresponde aos gastos de guerra dos EUA. Esse é um país em que o orçamento militar se chama “orçamento de defesa” por motivos, para mim, inexplicáveis. Porque a última invasão sofrida pelos EUA foi em 1812 e já faz quase dois séculos. O ministério se chama de “defesa”, mas é de guerra, mas como que se chama de defesa? O que tem a ver com a defesa? A mesma coisa se aplica às bases na Colômbia, que também são “defensivas”. Todas as guerras dizem ser “defensivas”. Nenhuma guerra tem a honestidade de dizer “eu mato para roubar”. Nenhuma, na história da humanidade. Hitler invadiu a Polônia porque, segundo ele, a Polônia iria invadir a Alemanha. Os pretextos invocados para a instalação dessa base dos EUA na Colômbia não são só ofensivas contra a dignidade nacional dos nossos países, como também ofensivas contra a inteligência humana. Por que dizer que serão colocadas lá para combater o terrorismo? Não é sério, por favor. A grande fábrica do terrorismo é essa potência mundial que invade países, gera desespero, ódio, angústia. Sabe quem esteve sessenta anos na lista oficial dos terroristas dos EUA? Nelson Mandela. Até 2008. É desse terrorismo que estão falando?

Entrevista de Eduardo Galeano à Caros Amigos.

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